Candomblé: Estigmas de uma religião.

Festa de Oxósi

Por Ana Paula Motta

Aconteceu, no último dia 30, uma festa no terreiro de Candomblé Ilê Wopó Olojukan, localizado no bairro Aarão Reis, em Belo Horizonte.


O babalorixá Sidney Ti Ososi recebeu seus convidados com muita gentileza e hospitalidade. A festa contou com a presença de vários adeptos, inclusive de outros terreiros. Em breve, estará disponível no diário de bordo, relatos sobre o evento. Não perca.

Por César Augusto Alves Paulo

Preconceito e a discriminação acompanham a vida de quem escolheu o Candomblé como religião. Marginalizados pela sociedade e por outras religiões, os fieis candomblecistas, muitas vezes, vêem-se obrigados a esconder sua religião das pessoas para não sofrerem com o preconceito.
O preconceito não consegue derrubar o orgulho que os fiéis têm por serem candomblecistas, mas esse orgulho fica cercado pelos muros dos terreiros. Apesar de ser uma religião já consolidada, presente no Brasil desde a colonização, o Candomblé não é amplamente divulgado, e a sociedade brasileira desconhece o que de fato representa a religião. A falta de conhecimento, aliada a fatores históricos, torna a luta contra o preconceito cada vez mais difícil.
O Candomblé é uma religião afro-brasileira, com maioria de fiéis negra, o que aumenta o preconceito. “O preconceito com o Candomblé se confunde, de forma muito forte, com o preconceito racial”, afirma Eligiane Miguel, professora da rede pública e graduada em História pelo Centro Universitário UNA. Eligiane conhece o Candomblé desde criança, quando sua mãe frequentava terreiros, mesmo sem ser adepta da religião. Hoje, após ter feito um curso sobre religiões de matrizes africanas, ela desenvolve um trabalho para combater o preconceito nas escolas.
A visão que as pessoas têm do Candomblé vem acompanhada de sincretismos negativos, associando as práticas religiosas que ocorrem nas cerimônias, a cultos demoníacos. Despacho e macumba são, hoje, palavras que integram o vocabulário do brasileiro e que carregam uma conotação pejorativa.
No entanto, há quem não seja Candomblecista e que compreende a importância de se combater esse preconceito. As estudantes Simone dos Santos e Juliana de Belles cursam o último período do curso de Turismo na faculdade Newton Paiva, e escolheram as manifestações da cultura afro-brasileira como tema para a monografia. “(O Candomblé) é uma religião muito rica, complexa. Tem muitos ritos, muitas manifestações, muitos elementos inseridos”, diz Simone. Para Juliana, que também conhece a religião desde criança, o Candomblé é importante para a sociedade, pois resgata valores históricos e culturais. “O candomblé é praticamente o berço do espiritismo. A cultura do brasileiro tem características afro-brasileiras”, informa a estudante de turismo.

Visita a um terreiro de Candomblé.

O Ilê Wòpó Olujukan é o primeiro terreiro de Candomblé Da Capital Mineira. No Bairro Aarão Reis. Encontra-se  hoje aos cuidados do Babalorixá Sidney Ferreira. A primeira visita revelou aos olhos e ao coração, pequenas sutilezas.

Por Hudson Freitas

 Na descida  calçada por paralelepípedos, no fim do morro íngreme abre-se o portão para um terreiro amplo e convidativo, com crianças correndo de um lado para o outro. Bicos dependurados nos pescoços, perninhas gordinhas com cuequinhas brincando de pique. Ô-modês (crianças) que caem, machucam e logo se levantam e esquecem do tombo. As velhas senhoras com suas roupas impecavelmente brancas que olham tudo sentadas em seus tamboretes ou em pé sob a soleiras das janelas de ferro. Janelas e portas abrem-se para o interior das casas, onde se avista velhas panelas no fogão. O bule que acabe de passar o café. O cheiro invade. E é uma mistura de cheiros que confunde. Os pés de mangas com suas primeiras flores e outras mil flores que desabrocham acolhendo ainda mais quem chega querendo saber tudo em apenas uma tarde. Uma velha senhora guia nossos passos até um amplo salão onde fomos convidados a ter a mesa com o Babalorixá.   

Poucas coisas ao redor, algumas fotos na parede, tronos de madeira. Uma pequena cronologia do terreiro dependurada na parede. No centro do salão duas representações: no chão um pilão e no teto um quadrado adornado com um algodão impecavelmente branco e bordado com ponto richelieu. Esse simbolismo é a ligação do céu com a terra. O medo de alguns deu espaço a curiosidade, permitindo a aprofundar no assunto. O cheiro da comida tomou conta do lugar e logo descobrimos que a comida não era “pra gente” era para o Orixá.  As filhas e filhos de “santo” passeiam de um lado para outro. Um bom café é servido, os cigarros se acendem, e a conversar vai tomando rumos engraçados. As primeiras impressões são formadas: cada um com a sua. E do nada nos vimos dentro do ônibus a caminho de casa.

Visita a um terreiro de Candomblé.

O ponto de encontro combinado foi uma estação do metrô, onde era o meio do caminho para todos. Hudson e Ana Paula esperaram por um tempo (longo tempo), mais enfim eu e Felipe chegamos!
O calor daquela tarde estava nos matando, e em mim invadia um sentimento pela ansiedade de chegar, que me deixava inquieta. Pegamos mais um ônibus e fui me assustando por estar tão longe de casa.
Quando descemos, já avistamos a entrada logo de cima. E o Hudson que já havia passado por lá, nos guiava. Uma descida com pedras de paralelepípedo, um portão de garagem, e uma carranca (pra me assustar), logo na entrada.

Fiquei pra trás e fui entrando com muito receio, logo que passei do portão fiquei um pouco mais tranqüila, havia crianças brincando, correndo pra todo lado. E pra minha surpresa, havia também algumas casas. Uma senhora muito simpática veio nos acolher, notava que a idade já tomava conta, mas não o desânimo. Seu vestido branco dava um contraste tão bonito com a cor de sua pele. Estava sorridente e disse que tinha acabado de fazer o almoço, mas já estava preparando um café. Ela nos levou até um salão amplo, um lugar com o chão pintado de bolas coloridas, pouco móveis, vários quadros com o desenho de orixás, alguns tambores, e uma cadeira de madeira no final.

Fomos ao encontro do Babalorixá, ou zelador de orixá como preferiu ser chamado. Enquanto aguardamos sua chegada, minha mão suava muito, um misto de medo e curiosidade. Quando chegou, cumprimentou cada um de nós com um sorriso e um forte aperto de mão, nos ofereceu água e pareceu um mistério pra mim. Sentei-me um pouco distante da mesa, e coloquei o gravador ligado bem perto dele. Em meio à conversa, fui descobrindo o lado humano do entrevistado, aos poucos fui me aproximando, a curiosidade e o enorme interesse pelo novo tomaram conta. Os filhos do terreiro andavam de um lado pro outro, e os que chegavam, iam até a mesa que nós estávamos se ajoelhavam diante do babalorixá e o cumprimentavam com o ‘’Agó’’ e ‘’Agoiá’’, nos entreolhamos na certeza que não iria ser difícil aprender o extenso vocabulário com a convivência. E tudo foi tão rápido que quando me dei conta já haviam passado horas de conversa. Aquela tarde, nos deu ânimo e aflorou em nossa alma jornalista, a vontade de apurar ainda mais essa história tão rica em cultura. Fomos embora,cada um com suas impressões mas todos com a certeza que temos muita estrada e horas de trabalho pela frente.