Candomblé: Estigmas de uma religião.

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A Festa

Desde o início de nossa pesquisa sobre o candomblé e de nossas primeiras visitas ao terreiro Ilê Wopô Olojucan, fomos convidados a participar da festa de Oxum, o orixá da água doce. Isso foi algo que despertou muita curiosidade e receio por parte do grupo.

No dia 30 de outubro, o grupo se reuniu em uma pizzaria no início da noite e de lá partimos munidos de blocos de anotação, canetas filmadora, câmeras fotográficas e muita curiosidade.

Chegamos ao terreiro e fomos bem recebidos como em todas as outras vezes em que fomos até lá. O salão estava arrumado com cadeiras e flores. No canto direito, a fonte de água de Oxum, estava iluminada e enfeitada. Havia uma mesa com doces e bolos, da qual acompanhamos a montagem. Aos poucos os convidados chegavam e os tambores começavam a ser tocados.

Teve início a primeira dança do ritual, e nós registrávamos todos os movimentos dos participantes que cantavam e dançavam em círculo. Com o término da primeira parte do ritual, Sidnei, o pai de santo do terreiro, nos pede para desligarmos as câmeras. O momento onde as pessoas incorporam os orixás, não pode ser registrado.

Para alguns membros do grupo, este foi o momento mais difícil de acompanhar. Mesmo que indo com a consciência de que era um trabalho e se despindo de qualquer preconceito, o novo muitas vezes assusta. Nenhuns dos membros jamais tinham visto de perto um ritual como aquele, onde as pessoas entram em transe e se deixam levar pelo ritmo da religião. Foi um aprendizado acadêmico que certamente nos proporcionou um grande crescimento como profissionais e pessoa.

 

Um Novo Terreiro

Por Françoise Batista

A busca pelo conhecimento sobre o Candomblé, nos fez chegar a um pequeno portão,com muros grafitados e uma escada íngreme no bairro santa efigenia em Belo Horizonte.O espaço que a primeira vista parecia ser pequeno para um terreiro de candomblé, aos poucos foi se revelando um lugar de muito religiosidade, afeto e solidariedade.Lá somos recebidos pela Cássia – Makota do terreiro que logo nos apresenta o espaço e rapidamente nos sentimos acolhidos pelas pessoas que lá se encontravam. Damos início as conversas e a curiosidade toma conta de nós, enchemos a Cássia de perguntas e a cada resposta descobrimos a grandiosidade e importância deste tema tão discriminado pela sociedade.
Vindos de Ouro Preto para Belo Horizonte há 42 anos atrás, Dona Efigênia que junto com sua família servia a guarda no batalhão da avenida do contorno funda o terreiro de Candomblé em um local que antes fora um terreiro de Umbanda. Como matriarca da família, Mãe Efigênia ocupa ali, a mais alta posição de hierarquia religiosa e referencia para 8 famílias que vivem no terreiro. Representantes da cultura africana, são pertencentes a nação de Angola e procuram manter vivas as tradições dos povos afro-descendentes através do Candomblé.
O terreiro possui muitas estórias e tradições que em 08 de dezembro de 2007, foi amplamente reconhecido pela Fundação Cultural Palmares que intitulou o Terreiro como sendo a Primeira Comunidade Remanescente de Quilombo organizada a partir de um Terreiro de Candomblé e Umbanda no Estado de Minas Gerais. Para Cássia, umas das filhas e coordenadora do Terreiro, esse reconhecimento é muito importante pois não só valoriza as comunidades remanescentes do Quilombo, mas também reafirma a importância de se manter um dialogo com a sociedades em relação ao racismo, discriminação e intolerância religiosa.
Denominado por Mãe Efigênia como “Uma Casa de Portas Abertas” O Terreiro possui hoje um projeto social e cultural de Capoeira que atualmente recebe 64 crianças e Jovens do entorno e de bairros vizinhos. Mantido por dois filhos do Terreiro o Projeto Kizomba não recebe nenhuma ajuda governamental ou de empresas privadas, sua realização se dá pelo empenho do Mestre e Prof. Ricardo (filho de santo) que ministra as aulas de forma voluntária e que procura resgatar através da Capoeira os valores deixados por seus antepassados. O Projeto conta ainda com a ajuda de outro filho do terreiro que vive na Suíça e subsidia o projeto com a doação de uniformes para as crianças.

Primeiras impressões – Hudson Freitas

Visita a um terreiro de Candomblé.

O Ilê Wòpó Olujukan é o primeiro terreiro de Candomblé Da Capital Mineira. No Bairro Aarão Reis. Encontra-se  hoje aos cuidados do Babalorixá Sidney Ferreira. A primeira visita revelou aos olhos e ao coração, pequenas sutilezas.

Por Hudson Freitas

 Na descida  calçada por paralelepípedos, no fim do morro íngreme abre-se o portão para um terreiro amplo e convidativo, com crianças correndo de um lado para o outro. Bicos dependurados nos pescoços, perninhas gordinhas com cuequinhas brincando de pique. Ô-modês (crianças) que caem, machucam e logo se levantam e esquecem do tombo. As velhas senhoras com suas roupas impecavelmente brancas que olham tudo sentadas em seus tamboretes ou em pé sob a soleiras das janelas de ferro. Janelas e portas abrem-se para o interior das casas, onde se avista velhas panelas no fogão. O bule que acabe de passar o café. O cheiro invade. E é uma mistura de cheiros que confunde. Os pés de mangas com suas primeiras flores e outras mil flores que desabrocham acolhendo ainda mais quem chega querendo saber tudo em apenas uma tarde. Uma velha senhora guia nossos passos até um amplo salão onde fomos convidados a ter a mesa com o Babalorixá.   

Poucas coisas ao redor, algumas fotos na parede, tronos de madeira. Uma pequena cronologia do terreiro dependurada na parede. No centro do salão duas representações: no chão um pilão e no teto um quadrado adornado com um algodão impecavelmente branco e bordado com ponto richelieu. Esse simbolismo é a ligação do céu com a terra. O medo de alguns deu espaço a curiosidade, permitindo a aprofundar no assunto. O cheiro da comida tomou conta do lugar e logo descobrimos que a comida não era “pra gente” era para o Orixá.  As filhas e filhos de “santo” passeiam de um lado para outro. Um bom café é servido, os cigarros se acendem, e a conversar vai tomando rumos engraçados. As primeiras impressões são formadas: cada um com a sua. E do nada nos vimos dentro do ônibus a caminho de casa.

Primeiras Impressões – Natália Alvarenga

Visita a um terreiro de Candomblé.

O ponto de encontro combinado foi uma estação do metrô, onde era o meio do caminho para todos. Hudson e Ana Paula esperaram por um tempo (longo tempo), mais enfim eu e Felipe chegamos!
O calor daquela tarde estava nos matando, e em mim invadia um sentimento pela ansiedade de chegar, que me deixava inquieta. Pegamos mais um ônibus e fui me assustando por estar tão longe de casa.
Quando descemos, já avistamos a entrada logo de cima. E o Hudson que já havia passado por lá, nos guiava. Uma descida com pedras de paralelepípedo, um portão de garagem, e uma carranca (pra me assustar), logo na entrada.

Fiquei pra trás e fui entrando com muito receio, logo que passei do portão fiquei um pouco mais tranqüila, havia crianças brincando, correndo pra todo lado. E pra minha surpresa, havia também algumas casas. Uma senhora muito simpática veio nos acolher, notava que a idade já tomava conta, mas não o desânimo. Seu vestido branco dava um contraste tão bonito com a cor de sua pele. Estava sorridente e disse que tinha acabado de fazer o almoço, mas já estava preparando um café. Ela nos levou até um salão amplo, um lugar com o chão pintado de bolas coloridas, pouco móveis, vários quadros com o desenho de orixás, alguns tambores, e uma cadeira de madeira no final.

Fomos ao encontro do Babalorixá, ou zelador de orixá como preferiu ser chamado. Enquanto aguardamos sua chegada, minha mão suava muito, um misto de medo e curiosidade. Quando chegou, cumprimentou cada um de nós com um sorriso e um forte aperto de mão, nos ofereceu água e pareceu um mistério pra mim. Sentei-me um pouco distante da mesa, e coloquei o gravador ligado bem perto dele. Em meio à conversa, fui descobrindo o lado humano do entrevistado, aos poucos fui me aproximando, a curiosidade e o enorme interesse pelo novo tomaram conta. Os filhos do terreiro andavam de um lado pro outro, e os que chegavam, iam até a mesa que nós estávamos se ajoelhavam diante do babalorixá e o cumprimentavam com o ‘’Agó’’ e ‘’Agoiá’’, nos entreolhamos na certeza que não iria ser difícil aprender o extenso vocabulário com a convivência. E tudo foi tão rápido que quando me dei conta já haviam passado horas de conversa. Aquela tarde, nos deu ânimo e aflorou em nossa alma jornalista, a vontade de apurar ainda mais essa história tão rica em cultura. Fomos embora,cada um com suas impressões mas todos com a certeza que temos muita estrada e horas de trabalho pela frente.