Candomblé: Estigmas de uma religião.

Arquivo para novembro, 2010

Os orixás

Os orixás são os deuses da religião. A eles são atribuídos elementos da natureza e suas criações. Diferentemente das divindades cultuadas por outras religiões, os orixás tem personalidades comuns, e por essa razão passeiam entre o bem e o mal.

Cada uma destas divindades do Candomblé tem seu significado e seus simbolismos, como cores, comidas, pedidos e oferendas. No Brasil, a religião conta com 16 entidades principais, entre elas as mais conhecidas como Exu, Yemanjá, Oxalá e Oxóssi.

Os negros cultuavam os orixás, que segundo a tradição da cabaça, símbolo sagrado que representa céu e terra, sofreram, uma divisão em que no Orum (Céu) ficaram os orixás com Olodumare, deus criador de todas as coisas, e no Aiê (Terra), ficaram os seres. Segundo a tradição os orixás se sentiam sozinhos e pediram permissão a Olodumare que descessem até a terra em algumas ocasiões. Para isso, os membros do Candomblé fazem suas festas e rituais para receber os orixás na terra.

Um fato curioso sobre os orixás que ocorreu durante a vinda do Candomblé para o Brasil em seu período de intolerância foi a atribuição de certos orixás a santos católicos. Por meio de tais atribuições, os negros rezavam para seus deuses que estavam disfarçados de santos.

Todos os passos, crenças, preceitos, rituais e hábitos do Candomblé, são feitos seguindo a adoração de seus praticantes pelos orixás. Eles regem a religião em todas as suas formas. Os candomblessistas são muito tementes os seus orixás. Eles partem da premissa que qualquer pedido feito por eles, deve ser atendido de pronto.

Por: Felipe Xavier, Hudson Freitas e Natália Alvarenga

 

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A Festa

Desde o início de nossa pesquisa sobre o candomblé e de nossas primeiras visitas ao terreiro Ilê Wopô Olojucan, fomos convidados a participar da festa de Oxum, o orixá da água doce. Isso foi algo que despertou muita curiosidade e receio por parte do grupo.

No dia 30 de outubro, o grupo se reuniu em uma pizzaria no início da noite e de lá partimos munidos de blocos de anotação, canetas filmadora, câmeras fotográficas e muita curiosidade.

Chegamos ao terreiro e fomos bem recebidos como em todas as outras vezes em que fomos até lá. O salão estava arrumado com cadeiras e flores. No canto direito, a fonte de água de Oxum, estava iluminada e enfeitada. Havia uma mesa com doces e bolos, da qual acompanhamos a montagem. Aos poucos os convidados chegavam e os tambores começavam a ser tocados.

Teve início a primeira dança do ritual, e nós registrávamos todos os movimentos dos participantes que cantavam e dançavam em círculo. Com o término da primeira parte do ritual, Sidnei, o pai de santo do terreiro, nos pede para desligarmos as câmeras. O momento onde as pessoas incorporam os orixás, não pode ser registrado.

Para alguns membros do grupo, este foi o momento mais difícil de acompanhar. Mesmo que indo com a consciência de que era um trabalho e se despindo de qualquer preconceito, o novo muitas vezes assusta. Nenhuns dos membros jamais tinham visto de perto um ritual como aquele, onde as pessoas entram em transe e se deixam levar pelo ritmo da religião. Foi um aprendizado acadêmico que certamente nos proporcionou um grande crescimento como profissionais e pessoa.

 

Um Novo Terreiro

Por Françoise Batista

A busca pelo conhecimento sobre o Candomblé, nos fez chegar a um pequeno portão,com muros grafitados e uma escada íngreme no bairro santa efigenia em Belo Horizonte.O espaço que a primeira vista parecia ser pequeno para um terreiro de candomblé, aos poucos foi se revelando um lugar de muito religiosidade, afeto e solidariedade.Lá somos recebidos pela Cássia – Makota do terreiro que logo nos apresenta o espaço e rapidamente nos sentimos acolhidos pelas pessoas que lá se encontravam. Damos início as conversas e a curiosidade toma conta de nós, enchemos a Cássia de perguntas e a cada resposta descobrimos a grandiosidade e importância deste tema tão discriminado pela sociedade.
Vindos de Ouro Preto para Belo Horizonte há 42 anos atrás, Dona Efigênia que junto com sua família servia a guarda no batalhão da avenida do contorno funda o terreiro de Candomblé em um local que antes fora um terreiro de Umbanda. Como matriarca da família, Mãe Efigênia ocupa ali, a mais alta posição de hierarquia religiosa e referencia para 8 famílias que vivem no terreiro. Representantes da cultura africana, são pertencentes a nação de Angola e procuram manter vivas as tradições dos povos afro-descendentes através do Candomblé.
O terreiro possui muitas estórias e tradições que em 08 de dezembro de 2007, foi amplamente reconhecido pela Fundação Cultural Palmares que intitulou o Terreiro como sendo a Primeira Comunidade Remanescente de Quilombo organizada a partir de um Terreiro de Candomblé e Umbanda no Estado de Minas Gerais. Para Cássia, umas das filhas e coordenadora do Terreiro, esse reconhecimento é muito importante pois não só valoriza as comunidades remanescentes do Quilombo, mas também reafirma a importância de se manter um dialogo com a sociedades em relação ao racismo, discriminação e intolerância religiosa.
Denominado por Mãe Efigênia como “Uma Casa de Portas Abertas” O Terreiro possui hoje um projeto social e cultural de Capoeira que atualmente recebe 64 crianças e Jovens do entorno e de bairros vizinhos. Mantido por dois filhos do Terreiro o Projeto Kizomba não recebe nenhuma ajuda governamental ou de empresas privadas, sua realização se dá pelo empenho do Mestre e Prof. Ricardo (filho de santo) que ministra as aulas de forma voluntária e que procura resgatar através da Capoeira os valores deixados por seus antepassados. O Projeto conta ainda com a ajuda de outro filho do terreiro que vive na Suíça e subsidia o projeto com a doação de uniformes para as crianças.

O Candomblé e sua representatividade no Brasil

Por Françoise Batista

 

O Brasil é um país de grande diversidade religiosa. De norte a Sul pode-se dizer que existem todos os tipos de religiões espalhadas pelos quatro cantos. Esta diversidade acaba criando o que se denomina de grupos específicos ligados a cada religião. Segundo informações de alguns cientistas sociais, muitos destes grupos religiosos, são formados num primeiro momento porque as pessoas são atraídas por suas características sejam elas sociais, culturais, econômicas, etc; outro fator importante apontado por eles é o fato de que muitas dessas pessoas se identificam com os ensinamentos e com a filosofia de vida de uma determinada religião e outros por encontrarem um grupo próximo a sua região o que facilita ainda mais seu acesso e participação. Como a vida é feita de escolhas, na religião não é diferente, por isso cada um, opta por aquela que se identifica mais, ou de acordo com sua história de vida tradição ou hereditariedade. Tratando especificamente de um destes grupos religiosos, abordaremos o Candomblé e sua representação no Brasil, de acordo com dados fornecidos pelos últimos Censos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Contextualizando os dados dos dois últimos Censos realizados no Brasil, faremos algumas considerações importantes: No ano de 2000 o total de pessoal que se declararam pertencer a religião do Candomblé foram 127.582 pessoas o que representa 0,07% que somado aos que se declararam Umbandistas 0,23% somam-se 0,30%. Número que em percentual parece ser muito baixo, mas que em número de pessoas é bastante significativo. Do ano de 2000 para 1991 houve uma queda de 14% no número de pessoas que assumiram ser destas duas religiões. Dos 0,07% de pessoas que afirmaram ser do Candomblé 70.382 são mulheres e 57.200 são homens. A presença feminina no Candomblé é marcante e representa 18,72% à mais que a classe masculina. Outro fator importante constatado pelo Censo nesta pesquisa é que demograficamente, das 127.582 pessoas que assumiram ser praticantes do Candomblé, 123.214 vivem em domicílio urbano e 4.368 em domicílio rural, o que mostra que mesmo em meios urbanos os Candomblecistas estão conseguindo manter sua cultura, tradição e religião.

Um ponto muito interessante desta pesquisa é que em relação ao Censo de 1991, houve um aumento de 48,01% no número de pessoas que não declararam sua religião ou que disseram não pertencer a nenhuma denominação religiosa. Em 1991 o número era de 7.636.756 pessoas em 2000 estes número passou para 14.691.223. Um aumento considerável que podemos até mesmo associá-lo aos diversos preconceitos sofridos pelos adeptos a algumas religiões como o Candomblé por exemplo. Muitas pessoas por medo de discriminações e por sofrer a chamada intolerância religiosa, preferem omitir a sua verdadeira opção religiosa para se resguardar contra atos preconceituosos que possam vir a sofrer. Sendo assim, acredita-se que muitos adeptos a religião do Candomblé estão escondidos entre estas outras milhares de pessoas que não se assumem como sendo desta denominação. Omissos, por medo da chamada Intolerância Religiosa, vivem as margens de uma sociedade ainda marcada por muitos preconceitos e desinformação.

 

Françoise Batista

 

Fontes: IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

 

Capoeira e Candomblé – Intimidade, Religiosidade e Cultura

Os Sons dos atabaques unem cultura e religião.

Por Françoise Batista

Dos Quilombos surge a Capoeira. Brincadeira utilizada pelos escravos como uma forma de distração, mais tarde se tornou instrumento de luta e defesa e este jogo da Capoeira segue presente até os dias de hoje e é constantemente associado aos terreiros de Candomblé.  Considerada pelos estudiosos com uma expressão cultural afro-brasileira, a Capoeira une elementos tradicionais originados dos negros da África e dos ritmos brasileiros como o Samba e axé. Os instrumentos de percussão como: o berimbau, agogô, atabaque, pandeiro e outros é que criam o ritmo que envolve a Capoeira, que se inicia primeiramente com a formação da “roda” a partir destes instrumentos. Os capoeiristas então iniciam um canto de louvação dos feitos e qualidades de capoeiristas famosos, conhecido entre eles como Ladainha. Ao término da Ladainha, vem o Canto de entrada, no qual os capoeiristas se benzem e dão início ao “Jogo”. Após o canto de entrada vem a chamada Corrida, que com seus toques e cânticos acelerados, animam o “Jogo”. Tudo na Capoeira tem um significado, seja no golpe, no toque dos instrumentos ou até mesmo nas cantigas. Algumas inclusive são usadas para provocar os participantes e são chamadas de Cantigas de Sotaque. Na capoeira existe um toque que era muito utilizado pelos escravos, o chamado Aviso, que servia de comunicação entre eles, para alertar a presença do capitão do mato ou da polícia. Tudo na capoeira tem um significado expressivo que é facilmente reconhecido pelos seus participantes. Desde o toque dos instrumentos aos golpes, tudo foi criado pelos escravos não só como forma de distração, mas também como uma maneira de comunicação entre eles.

Expressão cultural ligada à cultura afro-brasileira a Capoeira possui uma relação muito íntima e intensa com o Candomblé, pois sua visão de mundo se expressa através dos Orixás cultuados nos rituais de Candomblé. Em algumas regiões do Brasil, muitos capoeiristas famosos ocupam lugares de destaque nestes rituais como “filhos” de entidades ou como “incorporadores” das mesmas. A semelhança que há entre a Capoeira e o Candomblé é algo impressionante e que pode ser claramente observado, pois ambos contemplam um ritual de consagração a liberdade, camaradagem e alegria e suas raízes expressam religiosidade, sensualidade, dança e cultura, elementos típicos da cultura afro-brasileira que muito enriquece a cultura do nosso país.

Presente nos terreiros de Candomblé de todo o país, a Capoeira tornou-se para muitos deles uma ferramenta de resgate da cultura africana. Em Belo Horizonte, O Projeto de Capoeira – Kizomba, ligado a Associação Quilombola Manzo Ngunzo Kaiango, conhecido popularmente como (Terreiro do Pai Benedito), atende atualmente 90 crianças e jovens do entorno da comunidade e foi criado a partir da necessidade de se preservar a juventude negra através dos ensinamentos da Capoeira. O Projeto é coordenado por um dos filhos do Terreiro que é Mestre de Capoeira e as aulas são realizadas no próprio terreiro situado no Bairro Santa Efigênia. Sem ajuda ou incentivo de órgãos governamentais ou empresarias o Projeto segue seu percurso visando contribuir com a formação de jovens e criança, através do resgate de sua identidade, auto-estima e ao mesmo tempo procura educá-los para o pleno exercício da cidadania e solidariedade.

 

Áudio – Trecho Música Iniciação do Ritual

 

Acompanhe por este link o áudio de um Ritual do Candomblé.

Áudio Ritual Candomblé

Esta música é utilizada para avisar aos Orixás que uma cerimômina está começando.

MACUMBA X OFERENDA

Desvendando as verdades de uma crendice popular

Por Ana Paula Motta

Desde os primórdios do Candomblé no Brasil, é popularmente usada a expressão “macumba” para designar o culto religioso afro-brasileiro. Esse não é o sentido apropriado do termo e, muitas vezes, carrega um preconceito da parte de quem fala.

Segundo o babalorixá Sidney, do terreiro Ilê Wòpó Olujukan, a palavra macumba é encontrada no vocabulário Iorubá e remete à dança. O significado de Macumba encontrado em qualquer dicionário de língua portuguesa se define por Instrumento musical de percussão, de origem africana.

A maioria dos terreiros de Candomblé se recusa a usar essa expressão, já que no sentido pejorativo da palavra, remete à feitiço, despacho ou mandinga. Porém, há outros que não veem problema algum em usá-la, tratando de uma forma bem popular os trabalhos feitos pela casa, como os adeptos do terreiro Manzo Ngunzo Kaiango (Senzala de Pai Benedito), localizado no bairro Santa Efigênia, em Belo Horizonte.

Oferenda é um sacrifício feito para o Orixá que será homenageado, assim é sacrificado o que por ele é pedido, podendo ser galinha, pato, cabrito, entre outros. Em cada terreiro há uma pessoa certa para fazer o sacrifício do animal, chamada de Axogun, esta pessoa é escolhida pelo Orixá, suas mãos são abençoadas para fazer um ritual de prosperidade. O Candomblé guarda à sete chaves o segredo desse ritual. Apenas é divulgado pelos candomblecistas, que a oferenda além da carne do animal sacrificado, é composta por frutas, ervas, mel, azeite de dendê, flores, bebidas, louças e adereços. Também pode ser feita para suplicar uma graça almejada, trazer coisas boas, como: saúde, amor, prosperidade, equilíbrio e harmonia. São chamadas também de ebó e cada Orixá tem um ebó específico. Os principais são:

Exú: Carnes mal passadas, farofa, cebola e milho cozido;

Iansã: Acarajé;

Iemanjá: Peixes e frutos do mar com arroz e canjica branca;

Ogum: Cabrito e frango com feijão e inhame ao azeite de dendê;

Omolu: Pipoca com mel e coco;

Oxalá: Canjica branca e arroz com mel;

Oxossi: Feijão torrado com animais de caça, coco e mel;

Oxum: Feijão, camarão, cebola e ovos cozidos;

Xangô: Pirão de quiabo, camarão e camarão de dendê.

É aconselhável, ao fazer um ebó, utilizar materiais novos, nunca substituir o que é pedido na receita por um similar, focar o pensamento no que é desejado e não faze-lo para desejar o mal a alguém, pois pode atrair vibrações negativas e voltá-las para si.

Para muitos, oferenda e macumba são a mesma coisa, o importante é que transmitam o bem através de seus orixás, a cada trabalho feito, pois quando as pessoas querem o bem para si, é transmitida as energias positivas para os seus adjacentes, e daí por diante.